top of page

Colaboração não é harmonia. É vantagem competitiva.

  • 29 de abr.
  • 3 min de leitura


Imagine que um dos filmes mais icônicos da Pixar começou com um enredo assim: era uma vez um castelo flutuante no céu, totalmente desconectado da Terra, onde dois irmãos príncipes viviam disputando quem iria herdar o reino do pai. Eles eram opostos e não se suportavam. Em certo ponto, eles caíam na Terra e encontravam um pássaro que então os ajudava a chegar à compreensão mútua da arte de conviver.


Você consegue adivinhar qual história é essa? Essa era uma das primeiras versões de Up – Altas Aventuras.


E, honestamente, não parece grande coisa. O que transformou essa história em um dos filmes mais emocionantes da Pixar não foi um insight genial isolado. Foi um processo. Um ambiente onde ideias não são protegidas e sim desafiadas.

Na Pixar, existe um ritual chamado Braintrust, ou “banco de cérebros”, onde diretores e criadores apresentam seus projetos ainda imperfeitos para um grupo de pares. A regra é simples: todos têm o dever de dizer o que realmente pensam de forma radicalmente honesta. O que não funciona. O que está fraco. O que precisa mudar. Sem ataque pessoal, mas também sem proteção ao ego.


Foi nesse tipo de ambiente que Up deixou de ser uma história esquecível e se tornou o que conhecemos hoje: uma narrativa sobre amor, perda, memória e sentido tão impactante. A título de curiosidade, somente duas coisas sobreviveram daquela versão original, o pássaro alto e o título, UP.

É nesse tipo de espaço que histórias medianas viram narrativas potentes. E talvez seja exatamente esse tipo de espaço que mais falta nas organizações hoje em dia.

Falamos muito de colaboração, mas na prática ainda confundimos colaboração com harmonia, com evitar atrito. Só que colaboração de verdade exige algo mais raro do que boa intenção: a capacidade de sustentar o contraditório sem transformar diferença em ameaça.

Esse ponto fica ainda mais crítico no contexto atual. Em um mundo mediado por algoritmos e IA, interagimos cada vez mais com ideias que reforçam nosso próprio raciocínio. Recebemos respostas moldadas para concordar com a nossa lógica e testamos menos as nossas hipóteses. O risco aqui está não só no empobrecimento do pensamento, mas na qualidade das nossas relações. Cresce a tentação de terceirizar o desconforto: pedir à IA para escrever aquele feedback delicado, estruturar uma conversa difícil, suavizar o que precisa ser dito. 


Ao terceirizar essas conversas, renunciamos a algo essencial: a construção de relações reais. Relações que nascem justamente da vulnerabilidade, da imperfeição, da “bagunça” (ou messiness, como aponta Amy Gallo no SXSW 2026) de interagir, errar e reparar. Quando delegamos esse desconforto às máquinas, perdemos a musculatura emocional necessária para sustentar o outro e, no limite, para tomar decisões melhores.


Afinal a qualidade das nossas decisões é diretamente proporcional à qualidade das nossas relações.


Assim como a Pixar, organizações que querem prosperar precisam construir ambientes propícios para fomentar “redes de desafio”. Adam Grant, no livro Think Again, traz uma distinção essencial quando menciona que as melhores decisões não nascem de redes de apoio (que oferece conforto emocional), mas de redes de desafio composta por pessoas que oferecem feedback sincero e crítico, desafiando o pensamento convencional.

Parafraseando a líder de uma das empresas a qual apliquei um treinamento nesse tema recentemente: colaboração deixou de ser uma “soft skill”. Ela é bem hard, e uma das mais difíceis de implementar. Porque colaborar de verdade exige perder um pouco da própria centralidade. Exige aceitar que minha ideia não sai intacta. Que meu raciocínio não é completo. Aceitar que o outro viu algo que eu não vi. Que construir junto é, muitas vezes, abrir mão de ter razão sozinho para criar algo melhor em comum.


Colaboração, portanto, é a infraestrutura da inovação, da cultura de aprendizagem, da evolução individual. E em tempos atuais, uma condição de sobrevivência e uma alavanca concreta de performance.


Para mim o maior aprendizado do banco de cérebros da Pixar não é sobre criatividade, é sobre coragem. Coragem de construir ambientes onde ninguém precisa escolher entre pertencer e dizer o que realmente pensa.

Por Andrea Dietrich para RH Pra Você 

 
 
bottom of page